Pouco depois de encerrar as filmagens do curta-metragem America, o ator brasileiro Luca Castellani celebrou uma conquista marcante: tornou-se cidadão americano. O momento, contudo, veio carregado de emoções ambíguas. “É agridoce, porque olho para trás e não reconheço mais o país pelo qual lutei e onde desejei viver”, afirmou durante um debate após a exibição do filme no Variety Screening Series 2025, ao lado do diretor Aly Muritiba e sob mediação da jornalista Jazz Tangcay.
O curta retrata o impacto da imigração nos Estados Unidos por meio de um romance interrompido por um agente do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega). A história espelha a trajetória pessoal de Castellani, que deixou o Brasil aos 17 anos e levou uma década para conquistar a cidadania americana. “Costumo dizer que levei dez anos para fazer este filme”, revelou o ator, destacando que, embora a produção tenha sido rodada em apenas quatro dias — incluindo uma cena filmada clandestinamente durante um protesto real —, o roteiro traduz vivências e sentimentos acumulados ao longo de sua jornada.
Para Aly Muritiba, conhecido por trabalhos de forte cunho social, como Cidade de Deus: A Luta Continua (HBO), America marca sua estreia em língua inglesa e reflete sua constante busca por narrativas humanas e políticas. “Em toda a minha carreira, fiz filmes sobre temas sociais. Considero-me um lutador, e preciso usar minha voz para tratar de assuntos que considero importantes. Foi por isso que escrevi este roteiro”, explicou.
Durante o painel, o diretor também abordou as diferenças entre Brasil e Estados Unidos na forma de lidar com crises democráticas. “No Brasil, tivemos um governo de tendências fascistas que tentou dar um golpe, mas agora o ex-presidente está indo para a prisão porque nossa justiça funciona. Hoje, o Brasil é a maior democracia das Américas, e tenho orgulho disso. Aprendemos uma lição e podemos compartilhá-la com outros países”, declarou.
Castellani, por sua vez, refletiu sobre o contraste entre o sonho americano e a realidade dos imigrantes. “Tenho muitos amigos que vieram para cá em busca do sonho americano, mas ele acabou se tornando um pesadelo”, disse. Ainda assim, celebrou o novo capítulo de sua vida. “Agora me sinto seguro e muito orgulhoso de estar na América, lutando por este país como qualquer outro cidadão.”
Tanto Castellani quanto Muritiba destacam que o curta busca capturar essa ambivalência emocional — entre esperança e desencanto, amor e separação. “O que quero que o público entenda é que precisamos nos proteger e deixar as diferenças de lado”, afirmou o ator. “O sistema está tão quebrado que impede as pessoas de fazer a única coisa que todos precisamos: amar.”
Muritiba sintetizou o espírito da obra em uma frase que define seu impacto: “Este filme é sobre empatia. É uma história de amor em tempos difíceis.”
Com America, Castellani e Muritiba transformam a arte em ferramenta de reflexão e resistência, explorando a complexa realidade dos imigrantes sob a lente da humanidade, da esperança e da solidariedade — um lembrete de que, mesmo diante de fronteiras e barreiras políticas, o amor continua sendo a mais universal das linguagens.





