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Estudo aponta mudanças nos padrões de mortes de migrantes na fronteira entre EUA e México

Uma palestra realizada na Texas State University discutiu os padrões e as circunstâncias das mortes de migrantes que tentam atravessar a fronteira entre os Estados Unidos e o México. O encontro foi promovido pelo Center for the Study of the Southwest e apresentou resultados de uma pesquisa multidisciplinar conduzida pelo professor Alberto Giordano, do Departamento de Geografia e Estudos Ambientais da universidade.

Durante a apresentação, realizada no Brazos Hall, Giordano detalhou como a equipe reuniu e analisou dados provenientes de diferentes áreas do conhecimento para compreender melhor as mortes registradas ao longo da fronteira. O estudo utilizou ferramentas de Geographic Information Systems, além de contribuições da antropologia forense, relatórios de médicos legistas, registros policiais, organizações humanitárias e dados do National Missing and Unidentified Persons System.

Segundo o pesquisador, o objetivo central do trabalho é aprimorar os processos de identificação das vítimas. “A pergunta fundamental é: quem é a pessoa que morreu? Conseguimos identificá-la? É possível repatriar o corpo e conectar a vítima com sua família?”, afirmou Giordano durante a palestra.

A análise reuniu informações detalhadas sobre cada caso, incluindo status de identificação, faixa etária, sexo, raça ou etnia, nacionalidade, condição dos restos mortais, data ou estação do ano em que o corpo foi encontrado, tipo de paisagem, natureza pública ou privada do terreno e registros narrativos das autoridades envolvidas nas ocorrências.

Os resultados indicam que os padrões de morte variam significativamente entre estados e até entre condados. No estado do Arizona, por exemplo, a maioria dos migrantes é encontrada em áreas públicas de deserto, e as mortes estão frequentemente relacionadas à exposição prolongada ao calor e às condições extremas do ambiente. O estado também possui um sistema de médicos legistas considerado mais estruturado, o que contribui para uma documentação mais detalhada dos casos.

Já no Texas, a realidade é diferente. Grande parte do território ao longo da fronteira pertence a propriedades privadas, especialmente grandes ranchos, o que exige autorização dos proprietários para acesso. Nesses casos, as investigações dependem mais da atuação de delegados locais e juízes de paz, e os registros tendem a ser menos padronizados. O estudo também identificou que, no Texas, há um número maior de mortes classificadas como acidentes.

De forma geral, a maioria das vítimas registradas nos diferentes estados é composta por homens adultos, embora também exista um número significativo de mulheres e crianças. Em vários casos, os migrantes portavam documentos de identificação, mas ainda assim eram considerados em situação migratória irregular por não possuírem visto válido para entrada nos Estados Unidos.

Giordano também destacou que mudanças nas políticas de controle migratório ao longo das últimas décadas tiveram impacto direto nas rotas utilizadas pelos migrantes. Segundo ele, nos anos 1990 e início dos anos 2000 houve uma estratégia deliberada de concentrar a fiscalização em determinados pontos da fronteira, empurrando as travessias para regiões mais remotas e perigosas, como áreas desérticas.

“Esse tipo de política não necessariamente reduz o número de travessias. O que ela faz é alterar onde e como as pessoas morrem”, afirmou o pesquisador. “A fiscalização não elimina as tentativas de cruzar a fronteira, mas muda o padrão de risco enfrentado pelos migrantes.”

A equipe de pesquisa pretende realizar uma segunda etapa do estudo para analisar as implicações políticas dessas estratégias de dissuasão migratória. O novo trabalho deverá examinar como as políticas de controle influenciam a geografia das travessias e como os padrões de mortes variam entre diferentes regiões da fronteira, estados, condados e até locais específicos ao longo do trajeto migratório.

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