Em plena temporada de colheita, a escassez de mão de obra agrícola é sentida em várias regiões dopaís. Lidia, trabalhadora rural no Vale Central da Califórnia, resume o clima de insegurança: “Precisamos trabalhar para sustentar nossas famílias. Mas o medo de ser parada e deportada está sempre presente”, disse à Associated Press, pedindo que apenas seu primeiro nome fosse usado.
Segundo análise do Pew Research Center com base em dados preliminares do Censo, mais de 1,2 milhão de imigrantes saíram da força de trabalho entre janeiro e julho de 2025. O número inclui tanto indocumentados quanto residentes legais. É a primeira vez que o país registra queda na população imigrante após o total de pessoas sem status legal ter atingido 14 milhões em 2023.
Especialistas afirmam que o impacto sobre setores-chave da economia já é evidente. Os imigrantes representam quase 20% da força de trabalho americana – 45% na agricultura e pesca, 30% na construção civil e 24% no setor de serviços, de acordo com a pesquisadora Stephanie Kramer, do Pew.
“A entrada de novos imigrantes praticamente parou, e isso tem um efeito direto na capacidade de criação de empregos”, afirmou Pia Orrenius, economista do Federal Reserve de Dallas.
Agricultura e construção em crise
No Texas, Elizabeth Rodriguez, da organização National Farmworker Ministry, relata perdas significativas: “Durante o pico da safra de melancia e melão, em maio, a fiscalização paralisou o trabalho. Muitas colheitas se perderam”.
Na Califórnia, produtores de cítricos e abacates também enfrentam escassez. “Houve dias em que não tínhamos trabalhadores suficientes. O medo das batidas do ICE se espalhou rápido”, contou Lisa Tate, gestora de uma fazenda em Ventura County.
O setor da construção civil é outro dos mais afetados. Dados da Associated General Contractors of America mostram quedas de emprego em metade das áreas metropolitanas do país. O maior recuo foi registrado na região de Riverside-San Bernardino-Ontario (Califórnia), com 7,200 postos a menos.
Reflexos na saúde e nos cuidados
Além do campo e da construção, especialistas alertam para efeitos no setor de saúde. Imigrantes representam 43% dos auxiliares de saúde domiciliar nos EUA, função essencial diante do envelhecimento da população. “O que acontecerá quando milhões de americanos não encontrarem cuidadores?”, questionou Arnulfo De La Cruz, presidente da filial californiana do sindicato SEIU 2015.
Política migratória e futuro incerto
O ex-presidente Donald Trump, que prometeu deportar milhões de imigrantes, tem reforçado ações de fiscalização em empresas e locais de trabalho. Embora o discurso oficial seja de focar em “criminosos perigosos”, a maioria dos detidos pelo ICE não possui antecedentes criminais.
Para Lidia, que vive nos EUA há 23 anos e tem três filhos nascidos no país, a incerteza é angustiante: “Minha vida inteira está aqui. Recomeçar do zero no México seria como perder tudo”.
Enquanto isso, trabalhadores, empresários e especialistas concordam em um ponto: sem imigrantes, setores inteiros da economia americana ficam paralisados.





