A brasileira Bruna Ferreira, 33, que chegou aos Estados Unidos ainda criança e construiu praticamente toda a sua vida no país, foi presa este mês por agentes do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) quando deixava sua casa em um subúrbio de Boston para buscar o filho de 11 anos na escola. A detenção passou quase despercebida no noticiário, mas logo ganhou proporção nacional por envolver um elo familiar com a atual secretária de imprensa da Casa Branca.
Ferreira viveu experiências típicas do cotidiano norte-americano: estudou em escola pública, jogou tênis no time do ensino médio, casou-se, divorciou-se, abriu um pequeno negócio e manteve a guarda compartilhada do filho. A prisão, entretanto, fez dela um símbolo da nova onda de deportações intensificada durante a presidência de Donald Trump — mesmo no caso de imigrantes com raízes profundas no país.
Segundo relatos da família, durante a abordagem a brasileira mencionou diversas vezes aos agentes que a tia de seu filho é a secretária de imprensa da Casa Branca, Caroline Leavitt. A irmã de Bruna, Graciela Dos Santos Rodrigues, afirmou ao The Boston Globe que o comentário teria sido um recurso desesperado.
“Tenho certeza de que ela tentou usar qualquer coisa que conseguisse pensar no momento. Mas isso não ajudou em nada”, disse Rodrigues.
A revelação do vínculo familiar atraiu a atenção nacional para o caso. Ferreira foi descrita publicamente pelo governo como uma “imigrante criminal”, supostamente com antecedentes de violência doméstica — acusações contestadas por sua defesa, que diz não existir investigação criminal ativa e lembra que a brasileira já teve status no programa DACA.
Atualmente, ela está detida em um centro do ICE na Louisiana, aguardando procedimentos de deportação. A família afirma que o contato entre Ferreira e membros ligados à Casa Branca cessou há anos.
Nascida no Brasil, Ferreira chegou aos Estados Unidos aos seis anos. Segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS), ela entrou com visto de turista e deveria ter deixado o país em 1999. Ela cresceu na região de Boston, estudou na Melrose High School e se formou em 2011, onde integrava o time de tênis. No anuário escolar, escolheu a frase em italiano “La vita è bella” e escreveu: “Em 2021 serei mais velha, sábia e bem-sucedida”.
Após o ensino médio, Ferreira se casou com um colega da escola, mas a união terminou no ano seguinte. O divórcio foi oficializado em 2014. Na mesma época, ela se envolveu com Michael Leavitt — irmão mais velho de Caroline Leavitt — com quem teve o filho. Registros e fotos em redes sociais mostram momentos em família, incluindo um torneio de fantasy football vencido por Leavitt em 2014, quando o filho do casal tinha oito meses.
A relação não evoluiu para casamento, e o filho passou a viver com o pai em New Hampshire, enquanto Ferreira retornou a Massachusetts.
Em Massachusetts, Ferreira abriu um pequeno negócio de limpeza residencial, segundo amigos e registros online. A defesa diz que ela já teve proteção do DACA, mas não conseguiu renovar o status durante tentativas de revogação do programa. Hoje, segundo seu advogado, ela segue em um processo legal que poderia levar à cidadania.
De acordo com sua irmã, Ferreira sempre manteve presença ativa na vida do filho: visitava-o com frequência em New Hampshire, cozinhava pratos brasileiros e o levava para passeios no Dave & Buster’s. Ela disse que a família não tem contato há anos com Caroline Leavitt e que Michael Leavitt chegou a sugerir que Ferreira voltasse ao Brasil — opção que a brasileira sempre rejeitou.
Para Graciela Dos Santos Rodrigues, o maior impacto da prisão recai sobre o menino de 11 anos. “Ele pergunta o tempo todo: quando minha mãe volta para casa? Ela vai estar aqui no Dia de Ação de Graças? Ela vai estar no Natal?”, relatou.
Enquanto isso, Ferreira permanece detida à espera da decisão das autoridades migratórias, em um caso que expõe tensões familiares, controvérsias legais e o alcance das políticas de deportação em vigor.





