O medo de ações do Departamento de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, sigla em inglês) tem mantido crianças e adolescentes fora das salas de aula em Connecticut, especialmente na cidade de New Haven, onde uma em cada seis pessoas nasceu fora do país. Educadores alertam que a intensificação da política de deportações desde o início do segundo governo de Donald Trump vem impactando diretamente a frequência escolar, o desempenho acadêmico e a saúde emocional de estudantes imigrantes.
“Eles levaram ela, levaram ela”. Foi assim que a vice-diretora da Wilbur Cross High School, Cora Muñoz, percebeu a gravidade da ligação recebida de um responsável por uma aluna. Em meio ao choro e à dificuldade de falar, ficou claro que agentes de imigração haviam detido mais uma estudante da escola — situação que tem se repetido nos últimos meses.
New Haven Public Schools construiu, ao longo dos anos, uma relação de confiança com famílias imigrantes, oferecendo apoio jurídico, social e alimentar, além de orientações sobre direitos em casos de abordagem por agentes federais. Ainda assim, professores e diretores afirmam que o medo da deportação segue presente dentro das escolas.
Dados do estado mostram que, entre o outono de 2024 e o outono de 2025, mais de 2 mil estudantes aprendizes de inglês deixaram de se matricular em Connecticut, uma queda de 3,8%. Em New Haven, a redução foi ainda mais acentuada: 7,3%. Muitas famílias simplesmente desapareceram do sistema escolar.
Embora o índice de faltas crônicas tenha diminuído no ano letivo de 2024–2025, educadores relatam que, após a posse de Trump, estudantes passaram a evitar atividades extracurriculares e cursos em universidades, temendo encontrar agentes de imigração fora do ambiente escolar. Para muitos jovens, o sonho do ensino superior passou a parecer inalcançável.
“Eu vivo com medo”, relatou Darwin, estudante guatemalteco de 18 anos, que vive sozinho em New Haven. “Às vezes, eu nem quero ir à escola, porque tenho medo de sair de casa.”
Especialistas afirmam que a queda no número de estudantes imigrantes não se limita a Connecticut. No entanto, o impacto varia conforme o nível de fiscalização migratória em cada comunidade. “Estamos ouvindo relatos claros de crianças que simplesmente não estão indo à escola”, afirmou Julie Sugarman, do Migration Policy Institute. Segundo ela, a perda educacional pode comprometer o desenvolvimento acadêmico, linguístico e social desses alunos por anos.
Diante do endurecimento das políticas migratórias — incluindo a revogação de orientações que limitavam a atuação do ICE em escolas —, a superintendente do distrito, Madeline Negrón, implementou um protocolo rigoroso para impedir a entrada de agentes sem mandado judicial válido. “Minha obrigação é manter cada uma das minhas crianças em segurança”, declarou.
Apesar disso, prisões e separações familiares continuam ocorrendo fora do ambiente escolar. Em junho, uma mãe foi detida enquanto levava os dois filhos, ambos cidadãos americanos, para a escola. Um mês depois, ela foi deportada ao México. Desde então, o filho mais novo pergunta constantemente por que “levaram sua mãe”.
Casos semelhantes se repetem. Dois estudantes da Wilbur Cross foram detidos em sequência. Um deles, Esdrás, de 18 anos, chegou a ser transferido entre centros de detenção e quase deportado antes de ser libertado após uma mobilização de advogados, educadores e ativistas. “Eles são nossos alunos. Um dia estão almoçando na cafeteria, no outro estão presos em jaulas”, lamentou o diretor Matt Brown.
Rumores sobre operações migratórias também têm causado pânico. Em outubro, a presença de agentes fortemente armados perto de uma universidade levou escolas a temerem ações direcionadas a estudantes. A operação, no entanto, ocorreu em um lava-jato de outra cidade, resultando na prisão de oito trabalhadores, alguns deles pais de alunos.
Educadores relatam mudanças profundas no comportamento dos estudantes. “Eles estão mais silenciosos, mais tristes, pulando aulas”, disse Fatima Nouchkioui, professora de inglês como segunda língua. Organizações que apoiam o acesso à universidade também observam queda na participação. “Eles se perguntam por que tentar uma faculdade se não sabem se estarão no país amanhã”, afirmou Tabitha Sookdeo, da Connecticut Students for a Dream.
Enquanto isso, o medo do próximo arresto segue pairando sobre as escolas.





